RODAPÉ
Livros
de poesia escritos em parceria, com poemas que dialogam entre si, são
pouco comuns, mas podem ser considerados um gênero paralelo ou um
subgênero literário (sem conotação pejorativa).
Nos últimos anos, surgiram no Brasil várias publicações
que exploram essa vizinhança poética, como "Um Mundo Só
para Cada Par", de Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo, e
"Móbiles", pequeno volume com um poema de Augusto Massi e outro
de Age de Carvalho.
O próprio
Age de Carvalho é autor, com Max Martins, de "A Fala entre Parêntesis",
na forma de renga -exercício poético de origem japonesa em
que os poetas escrevem em cadeia, como no livro "Together", organizado
por Régis Bonvicino, envolvendo 29 autores.
Agora surgem
dois novos títulos: "Versos Avessos", de Celso Freire e Debora de
Simas, e "Brasibraseiro", de Antonio Risério e Frederico
Barbosa. São livros muito diferentes na intenção e
na realização, mas que têm em comum aquele diálogo
cerrado entre os poemas.
"Versos
Avessos" reúne fragmentos do discurso amoroso de Celso Freire e
Debora de Simas. Para leitores que procuram o transtorno das formas poéticas
e do discurso corriqueiro, será decepcionante. Apesar do inventivo
projeto gráfico (os poemas de Simas são impressos em papel
transparente, sobrepondo-se aos de Freire de modo a ressaltar o paralelismo
dos textos), o livro tem um lirismo nada comedido. Pode agradar quem se
identifica com poesia emotiva, de caráter confessional, em que as
palavras são "promessas do amor infindável".
Bem outro
é o caso de "Brasibraseiro". O título foi tirado de
uma passagem de "O Inferno de Wall Street", de Sousândrade ("Brasil,
é braseiro de rosas"), e o objetivo expresso do livro é refletir
"criticamente sobre esse projeto civilizatório chamado Brasil".
A proposta
é conseqüente com a trajetória dos autores. Risério
é um antropólogo que vem fazendo pesquisas no campo da etnopoesia,
com o resgate de textos afro-brasileiros que reverberam em sua própria
produção literária.
Frederico
Barbosa tem sido defensor da chamada "poesia de invenção",
expressão que Haroldo de Campos cunhou para designar textos que
ampliam o repertório das formas poéticas, mas que também
têm um significado "político": a resistência aos lugares-comuns
(poéticos ou não) em que a realidade se perpetua.
Nesse sentido,
"Brasibraseiro" é uma viagem pela história e pelo
imaginário do país, apropriando-se de formas do passado para
criar nova poesia e, por extensão, nova leitura dessa história.
Risério e Barbosa escarnecem de nossos traumas seculares (massacres
de índios, escravidão, turismo sexual) de forma virulenta,
sob o signo do ultrapassamento crítico da realidade social e da
renovação da história literária recente.
Um dos procedimentos
recorrentes é o "ready made", ou seja, a transposição
de textos de jornais e livros para uma forma poética que os ressignifica
de modo irônico -caso, por exemplo, de "Lance Búzios", em
que Risério atualiza frases de pasquins subversivos da Revolução
dos Alfaiates (ocorrida na Bahia em 1789).
Mas há
várias outras poéticas embutidas em "Brasibraseiro",
cujo momento mais feliz e complexo talvez seja o poema "Da Boça
à Bossa", em que Frederico Barbosa retoma "O Navio Negreiro" de
Castro Alves no ritmo binário do "I-Juca Pirama", de Gonçalves
Dias, agora sob o signo da resistência multicultural:
"Objetos
de bordo/ atados à boça/ balançam e dançam/
em baques e sovas// na boça no cabo/ atados à proa/ balançam
e dançam/ sem berros na forca// em terras estranhas/ são
negros boçais/ estúpidos rudes/ ignorantes banais// mas longe
da boça/ de servos à força/ balançam e dançam/
seu banzo blues troça// resistem no samba/ no jazz capoeira/ balançam
e dançam/ batuque rasteira// inventam a bossa/ vingança da
boça".
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Brasibraseiro
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Autores: Antonio Risério e Frederico
Barbosa
Editora: Landy
Quanto: R$ 25 (142 págs.)
Versos Avessos
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Autores: Celso Freire e Debora de Simas
Editora: Alpharrabio
Quanto: R$ 25 (106 págs.)
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